Fevereiro de 2026 provou ser um mês que
exigiu atenção minuciosa. Sessão após sessão, um tópico subiu
consistentemente ao topo da agenda: um desafio no fornecimento de
componentes que agora é uma realidade muito presente, com implicações
tangíveis para os negócios do canal. Aqui está o que se destacou ao
longo do mês.
Confira o que se destacou ao longo
do mês:
A Crise dos Componentes: De ruído
de fundo a protagonista
Se houve uma história presente em
todas as reuniões deste mês, foi a escassez acelerada de memórias RAM
e SSDs, e a consequente disparada de preços.
A causa raiz é clara: a fome dos
data centers de hiperescala por memórias de alta largura de
banda está consumindo a grande maioria da produção global de silício.
Chips de alta largura de banda exigem três vezes mais silício que as
memórias padrão. Isso significa que cada rack de servidor ligado para
rodar cargas de trabalho de IA está, na prática, "roubando"
o suprimento de todo o resto.
Um veterano do setor, com quatro
décadas de experiência, descreveu esse desequilíbrio entre oferta e
demanda como algo sem precedentes. E os números confirmam:
- Preços de RAM: Subida acentuada desde o
último verão (Hemisfério Norte), com saltos drásticos no
último trimestre de 2025.
- Dados de
Distribuição: Em janeiro, o preço médio de venda das
memórias RAM subiu 136% em relação ao ano anterior.
- Volume vs. Receita: Enquanto o faturamento sobe,
o volume de unidades vendidas na maioria das categorias de
hardware está caindo. Não é uma história de alta demanda,
mas sim de inflação.
Fabricantes como Western Digital e
Seagate confirmaram o cenário: toda a produção planejada para 2026 já
foi pré-vendida para os gigantes de nuvem (hyperscalers). Sem
capacidade de escala rápida na produção, a expectativa é que esse
cenário dure até 2027.
Como o Canal está respondendo
O aperto no suprimento já mudou o
comportamento do mercado:
- Antecipação de Pedidos: Revendas estão
estocando cedo para garantir inventário nos preços de hoje,
antes dos próximos aumentos. Isso infla a receita de curto
prazo, mas mascara uma possível fragilidade na demanda
real.
- Cotações Voláteis: O que antes era um
padrão de 30 dias de validade, agora caiu para 15 dias ou menos.
Alguns fabricantes já incluem termos que permitem o reajuste ou
cancelamento se os custos subirem antes da entrega.
-
Problemas de Governança: Para um comprador corporativo com
orçamento já aprovado, ter o preço alterado no meio do processo é um
pesadelo administrativo.
Como alternativa, compradores
buscam soluções como Nuvem, Device-as-a-Service (DaaS) e o
adiamento de projetos. Além disso, o mercado de dispositivos
seminovos/recondicionados está ganhando força. Com hardware novo
escasso e caro, equipamentos usados com garantia de terceiros
tornaram-se uma decisão de negócio sensata e aliada às metas de ESG.
ISE Barcelona: IA assume o papel principal
Fevereiro também trouxe a ISE em
Barcelona, o maior evento do mundo para integração de sistemas e AV.
Com 93 mil visitantes, o evento segue em crescimento.
O mais curioso foi o que não
estava lá: após dois anos de foco pesado em sustentabilidade, a
narrativa de ESG deu lugar à integração de IA em quase todos os
estandes. De telas de reunião inteligentes que fazem atas sozinhas a
hardwares com software de IA nativo como diferencial de venda, o foco
da indústria mudou rápido.
Fabricantes asiáticos também
ganharam destaque, pressionando os preços médios de venda para
baixo. Soluções de ePaper (papel eletrônico) atraíram
olhares, mas o consenso é que ainda levará tempo para ganhar tração
real no mercado.
Redes Corporativas: Wi-Fi 8 já
desponta no horizonte
Enquanto o canal ainda implementa o
Wi-Fi 7, a Broadcom anunciou a primeira solução de Wi-Fi 8 para
empresas, focada em ambientes preparados para IA. Diferente dos
anúncios da MediaTek na CES (focados no consumidor), o movimento da
Broadcom sinaliza o rumo do mercado corporativo antes do esperado.
Outro ponto de atenção foi a
integração HPE-Juniper, com uma prova de conceito pública nas
Olimpíadas de Inverno. A rede utilizou o assistente Marvis
(Juniper) e a plataforma Aruba Central (HPE), usando IA
generativa para que a própria rede gerencie e resolva problemas sozinha.
Visão Regional: Destaque para o
Báltico e EMEA
- Bálticos: A região é um destaque positivo,
com crescimento de 26% no fim de 2025 e um aporte de 2,8
bilhões de euros da UE para infraestrutura e defesa. A
Estônia superou previsões, impulsionada pelo consumo interno
e crescimento salarial.
- Europa: Espanha e
Polônia seguem fortes com projetos de defesa e educação. A
Itália, porém, continua estagnada.
-
Alemanha: Os índices parecem bons, mas integradores
relatam dificuldade em manter projetos devido à volatilidade
dos preços.
- Workstations: Cresceram dois
dígitos no final de 2025 na região EMEA, impulsionadas pela
demanda de computação de alta performance para IA.
Reflexão: A produtividade da IA
justifica o investimento?
Um ponto para reflexão: uma
avaliação recente do impacto da IA na produtividade nos EUA não
encontrou ganhos significativos em nível organizacional. A IA é útil
para o indivíduo, mas o ganho corporativo exige mudanças estruturais
que levam anos.
É irônico: a crise de suprimentos
que vivemos hoje é movida pelo investimento em infraestrutura de IA
, mas o retorno desse investimento pode demorar muito mais do que o
mercado prevê. Como diz o ditado: "nada mata preços altos como
os próprios preços altos" — compradores eventualmente buscarão
alternativas ou esperarão a poeira baixar.
O que vem pela frente
Março não deve ser mais calmo. Os
preços dos componentes continuarão evoluindo e a tensão entre custos
altos e demanda real será o ponto focal. O canal sempre foi resiliente
em tempos incertos, e observar como ele navegará essa tempestade será fundamental.
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